sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A Monotongação do Falar Espontâneo Brasileiro

A REDUÇÃO DO DITONGO DECRESCENTE
Na fala espontânea, poucas pessoas pronunciam as semivogais [w] e [y],   representadas na escrita pelas letras /u/ e /i/, em palavras, tais como “peixe, caixa, trouxa”. Esse fenômeno – denominado redução do ditongo decrescente ou monotongação – consiste na passagem de  ditongos /ei/, /ai/, /ou/, por exemplo,  à situação de vogais simples,  /e/, /a/, /o/,  e é cada vez mais perceptível no falar espontâneo brasileiro. No entanto  a grafia padrão ainda continua a indicar o ditongo. Os gramáticos concebem o ditongo como sendo a combinação de uma vogal e de uma semivogal, ou vice-versa, na mesma sílaba, tal como ocorre nos três exemplos anteriores.  O ditongo pode ser crescente e decrescente. É decrescente quando a vogal vem em primeiro plano:  couve, eixo, baixo, por exemplo. Já o ditongo em que a semivogal antecede a vogal é crescente: série, pátria, quarto, entre outros.  A vogal é a base da sílaba.  Um segmento vocálico é produzido toda vez que  a passagem da corrente de ar não é interrompida na linha central, não havendo obstrução ou fricção no trato vocal. Já as semivogais nunca constituem o cume de uma sílaba.  Devido à frequente redução do ditongo decrescente nas realizações orais,   casos de supressão das semivogais [w] e [y] em textos escritos de crianças e adolescentes são cada vez mais frequentes, sobretudo, quando ocorrem na sequência [ow] e [ey]: falou (falô), feixe (fexe), frouxo (froxo). Recentemente, realizei um trabalho investigativo para verificar em que contextos tal situação ocorre mais intensamente. Para isso, analisei  mais de cinquenta textos produzidos por crianças de séries iniciais do Ensino Fundamental,  todos produzidos em situação de ensino-aprendizagem, em uma escola pública da região do Vale do Aço.  Parti do pressuposto de que o trabalho do professor, em relação ao ensino da escrita,  pede um diagnóstico,  e ele deve ser estrutural. Isso implica investigar em que condições estruturais o aluno está atuando para que se possa chegar à condição estrutural a que se deseja chegar. Por exemplo, se a criança escreve “pexe” (peixe), mas não “peto” (peito), o professor poderá trabalhar com atividades de intervenção para um problema que realmente existe, e não com qualquer problema.

AS ESTRUTURAS DA SÍLABA EM PORTUGUÊS
Nos contextos fonéticos, os sons (fonemas), geralmente, funcionam combinados numa unidade superior denominada, gramaticalmente, por sílaba.  Em Português,  a natureza físico-articulatória da sílaba é muito complexa, e pode ser estudada sob vários aspectos. Por exemplo, pode-se  focalizar a série de movimentos bucais, ou o impulso expiratório, ou a tensão dos órgãos fonadores, ou o efeito auditivo que resulta de tudo isso, como nos lembra  Câmara Júnior, um dos mais respeitados linguistas brasileiros.   Esse linguista também se manifesta  sobre o quanto é difícil a seleção de critérios para definir a sílaba, uma vez que se pode considerar “o efeito auditivo, a força expiratória, o encadeamento articulatório na produção contínua dos sons vocais, a tensão muscular durante a série de articulações ou até mesmo o jogo da musculatura peitoral”. Segundo uma tradicional teoria chamada de “organização linear”, uma sílaba completa se constitui de um movimento de ascensão (aclive), culmina no centro silábico (ápice) e é seguido de um movimento decrescente (declive). A estrutura da sílaba, em Português, pode, então, estar condicionada ao aparecimento ou ao não aparecimento das fases crescente e decrescente. Considerando-se essa organização da sílaba, pode-se denominar qualquer vogal pelo símbolo V,  e qualquer consoante por C. Em Português, há três estruturas básicas da sílaba. Sílaba simples é a composta por uma vogal (V):  é, ô, a, por exemplo.  Sílaba complexa é a composta por uma consoante e uma vogal (CV): fé, lê, vô. Já a  sílaba completa  é formada por uma consoante, uma vogal e uma consoante, respectivamente (CVC): ler, mar, ver. No caso de uma sílaba completa, ocorre um aclive, um ápice e um declive. O elemento V é o que está no pico da sílaba (ápice), o que não acontece necessariamente em outros idiomas.

SEMIVOGAIS E CONTEXTOS FONÉTICOS
Os segmentos [w] e [y] são os únicos que estruturam ditongos em Português. Denominados de semivogais, em determinados contextos fonéticos, esses segmentos podem figurar na sílaba, tanto no aclive quanto no declive. Nesse último caso, constituem o chamado ditongo decrescente, tal como se dá nos vocábulos “feixe, peixe, outro, ouro”, por exemplo. Os segmentos [w] e [y] são tidos também como sons intermediários, pois participam tanto da natureza das vogais como na constituição das consoantes. Nesse caso,  em vez de ser o centro da sílaba, a vogal fica numa de suas margens (aclive/declive), conforme as consoantes. Do ponto de vista fonético, apresentam, simultaneamente, traços distintivos [- vocálico, - consonantal]. Em virtude dessas e de outras particularidades, observa-se que, mesmo em língua padrão, transita-se muito facilmente da ditongação à monotongação. Casos como /ou/ pronunciado como /ô/, tal como em “falô, comprô, levo” são muito frequentes, independentemente do nível de escolaridade. O índice é cada vez maior quanto mais nova for a faixa etária, mostram as pesquisas Situações como /ei/ pronunciado como /ê/, como ocorre em “pexe, fexe e amexa”,  também são muito usuais. Ocorre, ainda, a sequência /ai/ pronunciada como /a/ em palavras como “caxa, faxa, baxa”.  Essas situações nos mostram que os ditongos decrescentes estão em pleno processo de extinção.  Na realidade, todas as línguas são passíveis de mudanças. Essa é apenas uma delas.

Por>> Glória Dias Soares Vitorino

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